
Inicío por enaltecer a música,que emoldura os nossos dias e cujos acordes , mais rútilas fulgurâncias, entornam de poesia o quotidiano. Melodias despidas de letras são quadros sem moldura. Admiro o fraseado perspicaz, adornado de encantos e sentido filosófico, sinalizando rotas e prevenindo descaminhos. Valho-me do velho Lupi, ao insculpir sábio preceito no seu enluarado samba-canção “Esses Moços”, assim recortado: “...Saibam que deixam o céu por ser escuro /E vão ao inferno à procura de luz...” A meu juízo, a frase mais bonita da música popular brasileira. Atentem bem para a sua profundidade: céu escuro, o celibato; inferno com luz, o casamento! Pouca gente sabe, Túlio Piva me contou: um amigo de Lupiscínio (cujo nome prefiro omitir) estava prestes a casar. Lupi, cultor das madrugadas e notívago por excelência, desaprovava o enlace, por razões de foro íntimo. Desconfiava que a noiva não seria a mulher ideal para o companheiro. De outra parte, estava convicto de que o enlace implicaria na perda do velho parceiro de tantas noitadas. Então, a título de advertência, compôs esse esplêndido hino laudatório da boemia e candente libelo contra os grilhões matrimoniais. Consta que, apesar disso, o casamento foi celebrado e a cônjuge mulher teria cortado relações com o compositor, esfriando a amizade preexistente. Histórias que a vida se encarregou de tecer, servindo de mote e inspiração para mais uma obra prima do nosso cancioneiro.