
Aportei no Rio de Janeiro pela quarta vez. Como sempre, deslumbrado com as suas belezas naturais, dias ensolarados, o azul-verde do mar, profusão de bares apinhados de gente assomada por contagiante alegria de viver. Festa de brilho, cores e musicalidade! A Lapa boêmia, agora reestruturada, resplandecente ao ritmo febril do samba bem brasileiro. E o carioca, cioso das suas origens, ufanoso das dádivas que lhe foram aquinhoadas pela mãe natureza. Lá, recolhi preciosas lições: nunca me deparei com gente tão educada, transfundindo cortesia e calor humano. Metrô, ônibus e táxis em abundância, atenciosos motoristas prodigalizando afabilidade e sabedoria. Expurgados os morros dos traficantes e drogados, a segurança é uma realidade. Paraíso turístico, centro de lazer e cultura, gente afluindo de todos os recantos da terra. A cidade não dorme, atravessando noites e dias iluminada pelo sol ou pelas feéricas luzes noturnas! Metrópole mais linda do mundo, segundo o consenso geral. Daí porque hoje “Rio” sozinho, relembrando os momentos radiosos então revividos. Tudo isso de par com uma frustrante aflição causada pelo amargor do regresso! Guardadas as proporções, é desalentador retornar a Floripa e se defrontar com o atraso citadino. Aqui, sobreleva a incúria dos governantes, contumazes na prática de uma politicagem eleitoreira e rastejante, decantada por uma mídia interesseira, conivente, submissa e tonitruante no alardeio de arreglos e sinecuras para os apaniguados. Enquanto isso, Florianópolis está relegada a criminoso abandono, com deficiências no transporte público, na mobilidade urbana, nos serviços de táxis, no transporte marítimo, nas obras viárias e na segurança pública. Como se não bastasse, a "burrocracia" impera, o mar é uma cloaca, as praias abandonadas, o saneamento básico uma calamidade. Tudo isso, aliado a um custo de vida altíssimo, preços escorchantes e total despreparo para receber visitantes e turistas! Parodiando o slogan ufanista da ditadura militar, alguém poderia contrapor: "Floripa, ame-a ou deixe-a"... Absolutamente não é o caso, pois esta ilha já foi paradisíaca, há tempos atrás! Daí porque se afigura válida e propositada a crítica construtiva, tal como ora exposta, de forma circunstanciada, no intento de contribuir para uma melhor qualidade de vida. Importante colocar em evidência o contraste entre passado e presente. Dirão alguns, ingenuamente: é o progresso, corolário, talvez, do maior afluxo populacional. Tal argumentação cai por terra, bastando trazer, como parâmetros, comunidades mais progressistas e administradas com mais capacidade, visão e descortino. Rio de Janeiro é prevalecimento, mas Camboriu, aqui bem próxima, constitui significante exemplo ilustrativo. Verdade que o despreparo dos responsáveis está contribuindo, decisivamente, para que a ilha, que já foi da magia, submerja sob o marasmo da incompetência, de molde a fazer jus ao antigo designativo de "Ilha do Desterro"...